Autor: Marcela Trópia

  • Por que o Plano Diretor de BH não resolverá o problema das chuvas?

    Nos últimos dias, Minas Gerais foi assolada pelas maiores chuvas de sua história. São 196 municípios em situação de emergência, 53 mil pessoas desalojadas de suas casas e, o que é mais trágico, 56 mortos. Lamentamos muitíssimo por todas as pessoas que perderam casas, bens e, principalmente, suas vidas e entes queridos.

    Em BH, houve 13 mortes e analisá-las permite reflexão sobre não ser apenas a falta de investimentos públicos em infraestrutura, mas também regras excludentes de uso do solo e discursos populistas, que põem pessoas em risco.

    A região Centro-Sul foi uma das mais atingidas com alagamentos e ruas destruídas, mas nenhuma pessoa morreu. Outras regiões tiveram, infelizmente, que arcar com a imensa dor da perda de vidas. O contraste mostra que não é a chuva, por si, que causa mortes, mas sim pessoas vivendo em áreas de risco de deslizamentos de terra. Com toda certeza, viver nessas áreas não é a primeira opção de ninguém.

    Em pronunciamento após a tragédia, o prefeito de BH, Alexandre Kalil, esquecendo que teve três anos com dinheiro em caixa para fazer obras que melhorassem a drenagem da cidade e não utilizou sequer metade do orçamento disponível para isso, atribuiu culpa aos “empresários gananciosos” e sugeriu que o seu novo plano diretor, aprovado no ano passado, seria a solução para os problemas. Discordamos.

    O plano diretor criou um novo “imposto sobre construções”, nomeado Outorga Onerosa, que encarece a construção de novas moradias e o custo de viver nas regiões centrais da cidade. Justamente as que têm melhor infraestrutura para suportar temporais.

    O plano diretor de Kalil empurra a população mais carente para regiões mais distantes e menos preparadas, força a construção em terrenos ainda virgens e a impermeabilização de novas áreas, aumenta a necessidade de investimentos para criação de redes pluviais e de deslocamentos por vias com risco de alagamentos.

    Um prédio de 60 andares impermeabiliza a mesma área que um de três, construído sobre o mesmo lote. Regulação que empurra a população mais pobre para áreas cada vez mais distantes não ajuda. Discurso populista que ataca quem foi contra novos “impostos” não ajuda. Usar o dinheiro disponível no caixa e no orçamento para preparar melhor a cidade para chuvas teria ajudado, mas não foi feito. Agora é hora de corrigir o estrago. O prefeito pode fazer sua parte discursando menos, trabalhando mais e finalmente realizando os investimentos necessários. 

    A Câmara de BH pode fazer a parte dela também, revogando as regulações que encarecem a construção de novas moradias nas áreas de melhor infraestrutura e permitindo que a população mais pobre não sofra em vidas o que a mais rica sofreu “apenas” em patrimônio. 

    Co-autoria Marcela Trópia, Coordenadora Política do deputado estadual Guilherme da Cunha

  • Reforma administrativa do Estado: estabilidade de servidores

    O tema da Reforma Administrativa, que terá como objetivo mudanças no funcionalismo público, retornou à Câmara dos Deputados e em breve uma proposta do governo Bolsonaro deve ser formalmente apresentada. O ponto mais sensível de toda a discussão sobre o tema é a possibilidade de acabar com a estabilidade para servidores públicos.

    Antes de refletir sobre a necessidade ou não de uma estabilidade para servidores públicos, é importante esclarecer dois pontos: porque essa regra foi criada no passado e se é possível demitir um servidor efetivo.

    A estabilidade surgiu na Constituição de 1988 com objetivo de evitar que os funcionários públicos sejam demitidos em cada alternância de poder, protegê-los de represálias em casos que afetem interesses e garantir que as políticas públicas possam ser perenes ao longo dos mandatos. A ideia está fortemente fundamentada no modelo burocrático de Max Weber, que possui cinco pilares: 

    • Autoridade; 
    • Hierarquia e divisão do trabalho; 
    • Formalidade dos atos e comunicações; 
    • Especialização dos funcionários; e 
    • Impessoalidade das relações.

    A estabilidade, considerando o contexto weberiano, faz algum sentido, afinal, para garantir essa especialização dos funcionários e a criação de processos bem hierarquizados e divididos, é fundamental que haja continuidade no trabalho, algo que ela se propõe a assegurar. Ainda nesse sentido, funcionários estáveis se sentem mais seguros para serem impessoais nas decisões e não cederem a pressões políticas. 

    Mas como funciona a regra hoje? Servidores públicos contratados por concurso no Brasil só podem ser demitidos após um processo disciplinar, em casos de atitudes graves como recebimento de propina e abandono de função. Nesse processo, ele possui direito a ampla defesa, em seguida, a decisão é tomada por um comitê disciplinar e, ao final, ele ainda pode recorrer à Justiça. Ou seja, é possível demitir um servidor público? É. Porém a forma de fazer isso é burocrática, longa e desgastante. 

    Além disso, ele pode ser exonerado por motivos de desempenho, mas essa é talvez a forma mais rara. Por que? Quem é chefe de um setor durante um mandato acaba preferindo não criar desavenças com seus chefiados, atribuindo-lhes notas baixas ou chamando atenção repetidas vezes, porque em um próximo mandato, esse servidor que está sob sua chefia pode vir a ser o chefe. E ninguém quer gerar desavença com um futuro chefe por medo de retaliação, por mais justo que seja o motivo. 

    Esse modelo de fazer vista grossa para a improdutividade é causado, dentre outros motivos, pela estabilidade e é, por sua vez, uma das principais razões do mau desempenho do serviço público brasileiro. Isso também provoca outro problema: quem é bom de serviço fica desmotivado ao estar rodeado de servidores que não se dedicam tanto quanto ele e recebem a mesma remuneração ou até mais, dependendo da carreira a qual pertencem, sem a devida repreensão pelo baixo desempenho. 

    >> Conheça boas práticas no Setor Público 

    Todo esse quadro, provocado pela existência da estabilidade, de avaliações de desempenho pouco aderentes à realidade e a dificuldade de valorizar quem realmente se destaca por um bom trabalho, reforça a ineficiência do setor público e engessa a implementação de soluções para motivar seus funcionários e aumentar a sua produtividade. Mudar essas regras e modernizar todo o processo de admissão e gestão dos servidores é fundamental nesse sentido. 

    Os efeitos negativos da estabilidade ainda vão além. Sob a perspectiva de proteger os servidores públicos de pressões políticas que possam impedir a plena execução do seu trabalho, fica a seguinte reflexão: será que todas as carreiras precisam de estabilidade? Ascensoristas de elevador do senado atualmente são estáveis, por exemplo. Existem muitos cargos que não estão sujeitos a pressões políticas e que poderiam ser facilmente substituídos por um modelo de contratação sem estabilidade. Modelo que, inclusive, permita a redução de despesas em momentos de crise ou em mandatos de governos mais liberais, que acreditam na atuação reduzida do Estado de forma direta na sociedade.

    Em oposição a todo esse movimento feito pela equipe econômica do governo federal, os deputados criaram a Frente Parlamentar Mista em Defesa do Serviço Público, um retrato claro do corporativismo dessa classe e de como ela acessa rapidamente o poder para proteger seus privilégios. O líder da frente, o deputado Professor Israel Pimenta (PV-DF), argumenta que o setor público no Brasil ainda é pequeno (12% da população empregada pelo setor público, enquanto outros países desenvolvidos empregam 20%), se comparado a outros países da OCDE, e precisaria, inclusive, ser ampliado para garantir o bom andamento das políticas públicas. 

    O quadro atual só do governo federal é: 617 mil servidores ativos, 117 carreiras e, ao todo, 43 planos de cargos. Um emaranhado de nomes, funções que muitas vezes são semelhantes e regras confusas que só dificultam a gestão de pessoas no Estado. Antes de cogitar o aumento desse grupo, há de se questionar se são necessários todos esses funcionários para fazer um governo funcionar. Há de se questionar se o Estado precisa atuar em todas as áreas que atua, com esse grande volume de servidores. 

    Como é feito o dimensionamento de quantos profissionais como policiais, professores, médicos e pesquisadores são essenciais para um desempenho eficiente? A realidade é que essa conta não foi feita na formação do Estado Brasileiro. As leis que regem as carreiras são criadas com uma estimativa de servidores e os concursos públicos são realizados até que haja margem para nomeações permitidas por estes marcos legais. 

    O que todo esse caos da falta de uma política de gestão de recursos humanos no setor público provocou? 

    • Folha de pagamento acima do permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal;
    • Extrema burocracia para andamento dos processos; e
    • Um Estado inchado, lento, ineficiente e caro para o bolso dos pagadores de impostos. 

    Estes últimos que, sim, estão sujeitos a demissões a qualquer momento e sustentam toda essa estrutura que já demonstrou sua incapacidade de tornar a vida das pessoas melhor.