Audiência pública na Câmara Municipal debateu resultados e caminhos para ampliar o acesso ao tratamento pelo SUS
O mutirão de cirurgias de endometriose realizado no Hospital da Baleia, em Belo Horizonte, transformou o que começou como uma demanda pontual em um exemplo concreto de como políticas públicas podem nascer da escuta e da articulação entre diferentes setores. Financiada com R$ 650 mil em emendas impositivas da vereadora Marcela Trópia (Novo), a iniciativa permitiu a realização de 70 cirurgias especializadas, reduzindo pela metade a fila de espera de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) na capital mineira.
Os resultados do projeto foram apresentados e debatidos durante audiência pública no Plenário Helvécio Arantes, na Câmara Municipal de Belo Horizonte. O encontro, proposto pela Comissão de Mulheres, reuniu representantes da Secretaria Municipal de Saúde, da Secretaria de Estado de Saúde, do Hospital da Baleia e de instituições de referência, como o Hospital das Clínicas da UFMG e a Santa Casa de São Paulo.
A endometriose é uma doença inflamatória e crônica que afeta cerca de 7 milhões de brasileiras, o equivalente a uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva. Causa dores pélvicas intensas, infertilidade e queda na qualidade de vida – e, mesmo assim, ainda é subdiagnosticada e pouco priorizada nas políticas públicas. Segundo a Sociedade Brasileira de Endometriose, o tempo médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico no país é de sete anos.
“É um problema de saúde pública e também um problema social, que exige políticas integradas de atenção, acolhimento e informação. O mutirão mostrou que é possível transformar emendas parlamentares em resultados reais para as pessoas, quando há planejamento e sensibilidade na aplicação dos recursos”, afirma a vereadora Marcela Trópia, propositora da audiência e autora da emenda que financiou o projeto.
As cirurgias foram realizadas por meio da videolaparoscopia, técnica considerada o padrão-ouro para o tratamento da endometriose infiltrativa. O método é minimamente invasivo, permite recuperação mais rápida e preserva a fertilidade, mas ainda não é amplamente disponível no SUS. O mutirão, coordenado pelos médicos Maurício Bechara e Juliano Figueiredo, das equipes de Ginecologia e Coloproctologia do Hospital da Baleia, possibilitou também a aquisição de instrumentos específicos que serão utilizados em novas operações.
“O resultado mais importante é ver mulheres que esperavam há anos por um procedimento voltarem a viver sem dor. Isso tem um impacto enorme na qualidade de vida e na saúde emocional dessas pacientes”, explica o ginecologista Maurício Bechara, diretor clínico do Hospital da Baleia.
Com os resultados já alcançados, o próximo passo, segundo Marcela Trópia, é transformar a experiência em política pública permanente, garantindo diagnóstico precoce, protocolos clínicos específicos e centros de referência em endometriose na rede pública. “O mutirão foi o ponto de partida. Agora precisamos avançar para que toda mulher com endometriose tenha acesso a tratamento adequado, independentemente de onde viva ou da sua condição financeira”, completa a vereadora.
O debate na Câmara serviu também para alinhar estratégias entre o município, o Estado e os hospitais filantrópicos, que historicamente assumem parte expressiva da demanda reprimida por procedimentos de média e alta complexidade.
Mais do que um caso de sucesso em ginecologia, o mutirão do Hospital da Baleia se tornou um exemplo de como a boa gestão de recursos públicos pode gerar impacto direto e mensurável na saúde da população, em uma área frequentemente invisibilizada pelo poder público.